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Vencedor do Goncourt 2024 denunciado por suposta apropriação de história real
O escritor franco-argelino Kamel Daoud, que ganhou o prêmio Goncourt no ano passado por seu romance “Houris”, foi processado por uma compatriota, Saada Arbane, que o acusa de ter se apropriado da história da vida dela para escrever sua obra.
A primeira audiência por “violação de privacidade” acontecerá em 7 de maio em um tribunal de Paris, disseram à AFP fontes próximas ao caso.
A intimação judicial foi entregue ao escritor na quinta-feira, enquanto ele dedicava seu livro a leitores em Bordeaux, assim como para sua editora, a Gallimard.
Procurada pela AFP, a editora se recusou a comentar o caso.
As 'Houris' do título do romance são, na tradição islâmica, jovens mulheres de grande beleza que aguardam os homens crentes no paraíso.
O romance de Daoud se passa principalmente em Oran e conta a história de Aube, uma jovem muda depois que sua garganta foi cortada por um islamista em 31 de dezembro de 1999.
Saada Arbane afirmou em meados de novembro ao canal argelino One TV que a personagem de Aube foi inspirada em sua história.
A mulher sobreviveu a uma tentativa dos jihadistas de cortar sua garganta em 2000 e, desde então, usa uma cânula para respirar e falar.
Kamel Daoud a conheceu quando ela era paciente de sua esposa, Aicha Dehdouh, uma psiquiatra, entre 2015 e 2023.
Arbane, que já processou o escritor na Argélia, pede 200.000 euros (1,2 milhão de reais) de indenização em seu processo em Paris, bem como a divulgação pública de uma possível condenação, pois considera “totalmente impensável” que a semelhança seja fruto do acaso.
A autora da ação não queria que sua história fosse tornada pública e “nunca consentiu que sua história fosse usada pelo Sr. Daoud”, insiste o processo, “apesar de três pedidos”, diz o texto.
Pelo contrário, Saada Arbane estava “determinada a que, em nenhuma circunstância, essa história, tão singular, íntima e única, fosse usada por ninguém”, especialmente porque isso poderia expô-la a um processo criminal na Argélia.
O processo cita uma entrevista com o escritor, publicada em setembro no semanário L'Obs, na qual ele foi questionado se seu livro foi inspirado em uma mulher real.
Daoud, que já havia ganhado o prêmio Goncourt de melhor primeiro romance em 2015, respondeu: “Sim, conheci uma mulher com uma cânula (...) Ela foi a verdadeira ‘metaforização’ dessa história”.
J.Bergmann--BTB